Quem era ele?
Fernando estudou em vários colégios durante sua vida. Filho de militares (ambos, pai e mãe são altos oficiais do Exército), foi várias vezes transferido, tendo passado pouco mais de um ano em cada cidade. Conheceu Manaus, Belo Horizonte, Natal, Curitiba, Cuiabá... a lista era enorme. Essa falta de raízes num lugar só rendeu a ele sérias dificuldades nos estudos. Não conseguia aprender Física, Química, História. Seus pais até tentavam ajudá-lo, contratando professores particulares, porém não era suficiente. Ele precisava do contato permanente com uma escola, com colegas, com o dia a dia acadêmico, justificava a pedagoga da última escola, a de Brasília. Dessa escola ele sim, tinha muitas saudades. E não era pelos colegas que havia feito, até porque não fazia amigos com tanta facilidade. Seu coração acelerava quando se lembrava de Marina. Ah, aquele sorriso, aquele olhar... tudo em Marina fazia Fernando suspirar pelos cantos; sua mãe não entendia, quando chegava do quartel e o pegava escutando música na sala, no escuro, com um meio sorriso nos lábios. Claro que ele não contaria a ela, faria de tudo pra melar o quase relacionamento. Ciumenta como só, queria o filho pra si e mais ninguém. Isso era um dos motivos das maiores discussões dentro de casa.
Filho único sofre, ele pensava. E nessas horas queria ter tido um irmão, que pudesse ajudar a dividir a atenção dos pais.
Passar as tarde com Marina era o seu céu. Com a desculpa dos estudos, ficava na escola depois do horário e se recolhia com ela no pátio interior da academia militar onde estudou. Havia um cantinho sossegado, perto de uma mangueira, com umas mesas de pedra. Era ali que eles perdiam o tempo que tinham olhando um pro outro. Muitas vezes sem nada dizer. O silêncio não pesava; era quase como uma canção. Foi ali também que Fernando deu seu primeiro beijo, um beijo de verdade. Guardava por aquele espaço um enorme carinho.
Marina era um pouco mais baixa que ele, nem gorda, nem magra. Ele dizia que ela ficava linda de farda. Ela ria. Seus cabelos cacheados balançavam delicadamente toda vez que ela os soltava, na hora da saída. Ele esperava ansioso por esse momento, quando veria aquelas ondas deslizando pelas costas da menina. Ficava encantado. Seus colegas não perdiam tempo e começavam a gozação. Ele nem se importava; sabia que de ali a alguns minutos a teria só pra si.
Até que veio o dia da mudança pro Rio, mais uma transferência, a enésima de sua vida. Ele tentava se preparar pra esse dia, mas como era difícil dizer adeus a Marina. Ela compreendia, também era de família militar, sabia que a vida seria assim.
Eles marcaram de se encontrar num local que ninguém poderia incomodar. Foram a um cinema pouco frequentado perto da escola. Ali se comportaram como namorados, de mãos dadas e beijos em público, ainda que este não houvesse. Na hora de se despedir...
- Marina... eu... assim, queria te dizer que...
- Fala, Fê. O que é?
- É que eu... eu queria que você soubesse...
- Que eu soubesse de quê? Assim você me aflige!
- Então tá: eu amo você!
Marina arregalou os olhos, sem acreditar no que ouvia. Nunca a palavra amor foi mencionada entre eles. Tão novos... como podem saber o que é amar?
- Fê, você tá certo do que tá me dizendo?
- Claro que tô, Mari. Não queria ir embora e guardar isso pra mim. Não me faria bem.
- Mas Fê... você tá indo embora! Pode ser que nunca mais a gente se veja...
- Eu sei, minha princesinha.
- Bem, já que você se abriu pra mim, eu também tenho que te falar algo...
- O que é?
- Eu não ia te contar agora. Ia esperar você chegar ao Rio, se organizar.
- Fala, Mari. Agora quem me aflige é você!
- Meu pai vai ter que se transferir pra fora do país... vamos pros Estados Unidos...
- Você ia me contar isso só quando já estivesse lá?
- É, Fê, vê se me entende! Eu queria evitar qualquer tristeza maior entre a gente...
-Ok, Mari. Eu entendo, ainda que não aceite essa tua posição. E ficam quanto tempo por lá? Quatro, cinco anos?
- Não, Fê. Vamos em definitivo. Termino esse semestre aqui em Brasília e em dezembro nos mudamos. Não voltaremos mais pra cá.
Nessa hora Fernando, que não conseguia derramar uma lágrima sequer nem em filme de drama, chorou. Foi um choro doído, quieto, cheio de significado.
Marina também chorou, mais pela tristeza que o outro sentia. Ela já havia se conformado e chorado tudo o que tinha pra chorar quando soube da notícia. Precisava ser forte pelos dois.
Eles se abraçaram, ainda lamentando, e se despediram. Fernando a levou pra casa, cuidando pra que nenhum conhecido os visse. Deu um beijo na testa dela e se foi. No caminho pra casa pôde colocar toda a dor pra fora. Chegou com os olhos vermelhos e inchados. Foi direto pro quarto. Ficou por lá até o dia seguinte, dia da mudança, dia da viagem.
Quando o avião pousou no Galeão, sentiu uma ponta de tristeza, imaginando que não seria feliz na nova casa, na nova escola, na nova vida que levaria. Ele nasceu no Rio, mas nunca havia passado mais que um mês na cidade, de férias. Agora teria que morar ali.
Na busca por uma boa escola, seus pais fizeram questão de colocá-lo no Colégio Militar. Tinha direito à vaga, mesmo fora de prazo. Passada uma semana arrumando sua nova casa, começou a frequentar a escola.
Que dureza! Já chegou com as matérias já dadas, ou seja, teria de se virar pra pegar todo o conteúdo e estudar pras provas, que seriam dali duas semanas.
Na aula de Matemática II a coordenadora do ensino médio apareceu em sua sala, chamando-o pra conversar. Ressabiado, até porque era um procedimento de rotina com alunos transferidos, lá foi ele.
Apresentou-se, bateu continência e entrou na sala, sentando na cadeira que ela lhe apontava.
- Bem, Fernando, você deve saber o porquê eu o chamei aqui.
- Sim, dona Mirtes, eu sei. O procedimento é de praxe.
- Sim, é. Mas tem algo que eu quero acrescentar a esse papo nosso.
- Pode falar.
- Fernando, nós aqui no Rio temos um proceder diferente de outras academias no resto do país quanto ao comportamento dos alunos, o que fazem na escola e fora dela. Por exemplo, é proibido aos alunos homens serem vistos sozinhos acompanhados das alunas, também sozinhas. Você entende o que eu quero dizer?
- Entender, eu entendo, só não entendo o motivo de me dizer isso...
- Entrei em contato com a coordenação acadêmica da escola de Brasília. Contaram que você era constantemente acompanhado por uma colega de classe. Vocês ficavam escondidos num canto afastado do pátio, sabe-se lá fazendo o quê.
- Dona Mirtes, não era bem assim, veja...
- Agora isso não tem mais importância, Fernando. Você não está mais em Brasília, e ao que me parece, nem essa sua namoradinha, não?
Nessa hora a lembrança de Marina ficou ainda mais doída. Colocaram a integridade dela em jogo, que absurdo!, pensava. Com os olhos cheios d'água, ele fez que “sim” com a cabeça. Não encararia aquela mulher daquele jeito que estava.
- Então, é isso. Quero avisar que não toleramos comportamentos fora dos padrões aqui nessa academia. Tudo o que você fizer dentro e fora dela, com menos de 100 metros de distância, é da nossa jurisdição, portanto se tiver de agir, agirei nos critérios estabelecidos. Estamos entendidos?
- Sim, senhora.
- Ok, então. Dispensado.
Fernando saiu batendo o pé, durinho. Quis bater a porta quando fechou, mas não teve coragem de fazer algo. Acabara de chegar. Precisava suportar.
E suportou um ano inteiro naquela masmorra, como ele chamava o colégio. Fizera amigos, bons companheiros, coisa que não havia encontrado em outros lugares. Saía, jogava bola, vídeo game, ia às festinhas. Ainda se sentia sozinho, com dor de Marina.
Eles se corresponderam bastante durante todo aquele primeiro ano de separação. Foi virar o ano que Marina também mudou de comportamento. Já não escrevia com tanta frequência, respondia os e-mails de forma mais monossilábica. Parecia que se sentia incomodada com a insistência dele em saber como ela estava.
Até que Fernando escreveu um “testamento”, colocando pra ela tudo o que sentia e dando um ultimato: ou ela se explicava e voltava a ser como era, ou era melhor ela esquecer que o havia conhecido. Marina respondeu também em forma de “testamento”, mas não foi do jeito que ele esperava. Disse que estava extremamente ocupada, não tinha tempo com tantos afazeres, cursos, trabalho pra responder com todos os detalhes que ele queria. E deixou a cereja pro final, como sempre: estava conhecendo um menino do 3º colegial. Fora chamada por ele pra ir ao baile de formatura. Não podia mais ser a Marina que Fernando conheceu, pois essa não existia mais.
Coitado dele; ficou arrasado. Chorou, socou a parede do quarto, chutou o ar, caiu na cama. De raiva, dormiu a tarde inteira, só levantando na hora do lanche. A empregada foi bater à porta, ficou preocupada. Fernando não deixava de almoçar nunca, mesmo com sono. E nesse dia até o copo de leite antes de dormir ele rejeitou.
Três dias depois, um pouco melhor, saiu pra espairecer. Era uma segunda-feira, estava fria e chuvosa. Ele, que já havia morado no sul, achou o clima até bem aprazível. Pegou o ônibus na porta de casa e foi até o shopping mais próximo. Como era dia de semana, estava vazio, perfeito pro que ele queria, andar sem pensar em mais nada. Matara aula e nem se preocupou com o que a coordenadora iria falar.
Estava distraído, andando por aqueles corredores repletos de vitrines e tentações ao consumismo, quando viu aquela menina. A princípio pensou que fosse Marina; os cabelos cacheados, a mesma altura, o mesmo corpo... Sua intenção foi se aproximar, pegar no braço daquela moça, puxar pra si e dar um beijo daqueles, que ele guardava há mais de um ano. Mais perto dela, porém, percebeu que não era Marina. A menina tinha a pele mais morena pouca coisa, além de um sinal no rosto, coisa que a brasiliense não tinha.
Ficou ali um bom tempo observando-a. Até que não resistiu.
- Viajando, não?
- Como? Do que você está falando?
- Que você tá aí há tanto tempo, olhando fixamente pra essa vitrine que é óbvio que está viajando, só não sei dizer em quê...
O resto dessa conversa você já sabe... Quando ele se afastava, ainda impactado com a semelhança física entre as duas, a saudade de Marina apertando seu peito, ele derramou uma lágrima, uma apenas. No entanto, algo novo surgiu na cabeça de Fernando. Quem poderia ser essa menina que namora vitrines, se parece tanto com Marina, mas tem um jeitinho que é só dela? Preciso descobrir...